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A cagada colonial
e o Resto do Mundo
Kolonialer Scheiß
und der Rest der Welt
Essay by Suelen Calonga,
Danú Gontijo and
Bárbara Santos.
Danú Gontijo and
Bárbara Santos.
A cagada colonial
O colonialismo foi uma grande cagada. Não contentes em cagar a Europa, foram cagar regra em outros cantos. Numa narrativa aventureira-descobridora que persiste até hoje, colonizaram territórios e gentes, aniquilaram povos inteiros, dilaceraram comunidades, torturaram, exproriaram, expulsando milhares de suas terras, estuprando mulheres, escravizando pessoas,
apropriando-se de suas riquezas, impondo suas narrativas e línguas coloniais. O colonial não é passado. Segue vivo, sofisticado e envernizado. Colonial-modernidade, indissociáveis (Quijano). O projeto-anticivilizatório máximo. A merda se torna parte da paisagem, como as riquezas e objetos de poder ancestral de povos originários que decoram museus europeus. Algumas fedem menos forte, como os incontáveis exemplos do racismo alemão cotidiano relatados por Grada Kilomba em “Memórias da Plantação”, de cunho infantilizador e animalizador disfarçado de elogio e boa intenção. Controle de corpos, territórios e narrativas, tornados dominação política e lucro. A colonização espiritual. Ou o que mais significaria um museu europeu inaugurado em pleno século XXI (Humboldt Forum) manter objetos sagrados do mundo inteiro sob uma cruz e um domo ornado com letras douradas: "Dass in dem Namen Jesu sich beugen sollen aller derer Knie, die im Himmel und auf Erden und unter der Erde sind. Es ist in keinem andern Heil, ist auch kein anderer Name den Menschen gegeben, denn in dem Namen Jesu, zur Ehre Gottes des Vaters"? A ordem colonial-moderna-capitalista persiste e grassa em todo o planeta, numa produção incessante de periferia e excremento. Empresas europeias vendem produtos piorados para bebês do resto do mundo. Agrotóxicos proibidos na Alemanha podem ser produzidos por empresas alemãs para envenenar a comida do resto do mundo. No coração da colonial-modernidade está a raça. A raça nos permite reconstruir o fio das memórias afetadas pelas múltiplas censuras da colonialidade (Segato). No coração da ordem colonial-moderna-capitalista está a desumanização e o racismo, que, de mãos dadas com o patriarcado, é o motor da fábrica de outrificação.
O resto do mundo
O resto do mundo é, no fundo, tudo o que não é centro, e o centro é só um ponto. É o que sobra numa equação sempre relacional a um referente. Não importa o tamanho do resto, que seja imenso, 99%. O resto são os outros do mundo: pessoas racializadas por esse centro que se diz sem cor nem raça. Todes tornades abjetos, as mulheres, as pessoas trans, com deficiência, de sexualidades dissidentes. Os restos são o povo sudanês, o povo palestino, o povo congolês. Cuba e Haiti, restos. Gaza, uma faixa, um resto. A geografia da melanina, “partículas de uma paisagem vencida” (Segato), os condenados da Terra (Fanon). Paisagem de gente africana, árabe, asiática, latina. Edward Said escreveu sobre a invenção do resto. A fabricação narrativa pelo dito Ocidente de seu Outro dito Oriente, exótico, irracional, inferior, feminino, a fim de impor sua agenda política e econômica. Tratam os povos originários como o outro do Ocidente, assim como tratam a mulher como o outro do homem. A emoção como o outro da razão. O corpo como o outro da cabeça. A natureza como o outro da humanidade. Vide o fenômeno da feminizaçao da pobreza e as centenas de milhões de bebês abortados em várias partes do mundo pelo fato de serem do sexo feminino (Sen, Hvistendahl). Se o homem branco do norte é a cara do centro, a mulher negra do sul global é a cara do resto do mundo.
Restar mundo
Os 10 homens mais ricos do mundo concentram mais renda do que 3,1 bilhões de pessoas (OXFAM). O fosso da iniquidade social global aumenta a cada ano, multiplicando restos. E a ordem colonial-moderna-capitalista excrementa e faz do mundo um esgoto a céu-aberto, caga com o planeta, caga com as pessoas, tudo para assegurar o modus vivendi no norte global. Como restar e resistir no resto do mundo? Reexistindo. Existindo de outro modo. Restos são adubo. Adubadas pelas mulheres anônimas que cagam nas praças, cagaremos para a ordem colonial-moderna-capitalista. Adubadas por Marielle Franco, faremos das e dos que tombaram adubo de sementes infindas. Adubadas por Paulo Freire, romperemos com o fascínio pela
hierarquia, pelo centro, pelo topo. Adubadas por Angela Davis, juntaremos as mãos com todos os povos oprimidos. Adubadas por Edward Said, seremos todes Palestina, contra os impérios das guerras. Adubadas por Abdias do Nascimento, aquilombaremos. Adubadas por Ailton Krenak, recusaremos o paradigma moderno ocidental que vê como primitivas culturas com avançadas tecnologias comunitárias e socioambientais. Adubadas por Conceição Evaristo, escreviveremos nossas próprias histórias, sem sermos reduzidas a uma história única, como coloca Chimamanda Adichie. Romperemos com a ideia de des-envolvimento, como ensinou o mestre Nego Bispo, porque queremos nos envolver, tecer comunidade abraçando a ideia de
confluência, “a energia que está nos movendo para o compartilhamento, para o reconhecimento, para o respeito”. Segundo Rita Segato, “O vazio da vida [da Europa] resulta do projeto histórico d’As Coisas em oposição ao projeto histórico d’Os Laços. O primeiro constrói indivíduos, o segundo constrói comunidades.” Derrotaremos o Yurugu, e encerraremos a Maafa, como nos inspira Marimba Ani. Narraremos, adubadas pelas confluências de ideias contracoloniais, o retorno ao futuro, como diria Aníbal Quijano. Resgataremos nossa história de vínculos para fazer nascer outras palavras: arte, no sentido de Abdias do Nascimento, um evento de amor, conexão e integração com nossas comunidades. Somos o que temos, não o que nos falta. Juntar os restos do mundo é o modo de fazer restar mundo.
A mulher cagou na praça (danú gontijo)
Uma mulher cagou na praça.
Solenemente levantou a saia, e como fazem os cachorros, cagou.
Desde a janela da sala, vi o que nunca havia visto. Desde o luxo de ser civilizada, burguesa, limpinha. E a vi em uma sopa de sensações: misto de vergonha de mirar, misto de ultraje-moral, sal e tristeza, e uma pitada de palavras ainda não inventadas para dizer o que carecerá sempre de tradução.
Ela não viu ninguém. Tão naturalmente levantou a saia, longa, puída, carcomida, cor-de-abóbora corroída de rua, cabelos grisalhos desbotados de estrada, morena como são as mexicanas pobres, e velha, e suja, empoeirada de cidade, a moradora das calçadas.
E onde caga quem mora nas calçadas? Eu que penso que penso, nunca pensei.
Vejo a imagem da foto que eu não tirei: a bosta no canto do canteiro do lado esquerdo da praça, do lado esquerdo da minha janela, que nesse momento foi o meu mundo inteiro.
Eu intelectualizando a cagada da mulher que mora na rua, eu que reflito sobre quem tem corpo e que esqueço que tenho corpo eu mesma. E que esqueço o que não é difícil esquecer: o tanto de gente que põe o corpo para que gente como eu teça teses sobre a vida. Nós, que “nos refugiamos no abstrato”, como disse uma circunspecta Clarice, e que cagamos a portas cerradas, borrifadas de lavanda. Nós, o homo academicus de um Pedro francês. Nós, a Simone, que se mudou para um hotel, para ter menos corpo, e poder produzir mais. Mesmo quando eu sei da garra que tiveram de ter feministas como ela. Mesmo quando sei que ainda hoje, as mulheres continuam tendo mais corpo que os homens, quando muitas abandonam as carreiras ou se acomodam em posições de menor prestígio. Mulheres que carregam o rebento, cozinham, lavam, e não passam incólumes pelo corpo, não passam incólumes por essa abstração ocidentalizada de sujeito dissociado do corpo. Como se não fossemos gente de carne, e fluídos, e excrementos, como se os corpos não fossem matéria e, tal qual nos ensinou uma Judith, não importassem.
Poderia ser até um homem, como os muitos que também moram nas ruas, mas calhou de ser uma mulher, que levantou a saia, e que não agachou, só se inclinou, como fazem as pessoas em reverência, e cagou na praça, como os cachorros finos das pessoas finas que a frequentam.
Um Pedro alemão escreveu muito sobre o cinismo e sugere que já não nos comovem as verdades reveladas, que vivemos numa era onde invertemos a parábola da ideologia de um outro alemão, o Karl: de “eles não sabem o que fazem, mas fazem”, para “eles sabem o que fazem, mas fazem”. Diferente do cinismo de um Diógenes, que na luta contra a hipocrisia de sua época, desprezou Platão, e corporificou a teoria: optou por uma vida ascética, vivendo na praça, como os cães, e sendo associado com um. Entendia que era mais virtuoso viver o ato do que teorizar sobre como viver.
Como uma Diógenes de Sinope moderna, a mulher cagou na praça. Não sei se houve mais plateia, mas eu a assisti; eu, acompanhada de clarices, e simones, e pedros, e karls, e judites.
Eu, somente mais uma de nós que pensamos que pensamos, que sagramos as palavras como engenho de luta por um mundo mais justo. Porém, de que forma conectar o pensamento com nosso próprio excremento e com o que o nosso modo de vida excrementa no mundo?
Essa mulher cagou para nós. Por certo, não performou sua cagada, a valente moradora das calçadas. Tinha ganas de cagar, não tinha onde, e simplesmente cagou. Mas um pensamento ricocheteia adentro e me aflige, desde então: fomos nós que cagamos para essa mulher.
A cagada decolonial (bárbara santos inspirada em danú)
Uma mulher cagou na praça. Cagou!
Cagou em nós!
Cagou por nós!
Levantou a saia longa, puída, carcomida,
pela vida corroída e… Cagou!
Cagou em nós!
Cagou por nós!
A bosta no canto do canteiro,
miséria do mundo inteiro.
O tempo parado no segundo,
a mulher e o resto do mundo.
Sabença (suelen calonga inspirada por bárbara e danú)
Contra a cagada colonial só/nem folha da goiabeira.
Suelen Calonga. Essay co-authored with Danú Gontijo and Bárbara Santos.
Barrio (Bairro) Berlin Latin American literature festival. Org.: Alba Lateinamerika Lesen & Colectivo Transatlántico. pp 83-86.
Berlin, October 2024.
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